Irreal consensual

Às vezes interrogo-me como podem as nações entenderem-se se as pessoas, a título individual, também não se entendem, a partir de coisas mínimas, insignificantes.

Sempre observei isso, nomeadamente nos ambientes de trabalho, e até, por vezes, no meios familiares. Intransigências, orgulhos, silêncios, palavras, de tudo surgem conflitos, pequenos ou tornados cada vez maiores, uma miríade de desentendimentos.  Com o advento das redes sociais, essas posições antagónicas surgem em ritmo voraz, ao abrigo do teclado e da distância generalizada, mas ainda assim como algo assustador, de proporções exageradas ou sem sentido.

Nada é consensual. Tudo é motivo de infinitas leituras, de extremadas perspetivas, de inúmeras verdades. Surgem todos os ângulos, todas as opiniões, todos os prismas, todas as posições. É bem verdade que tudo isto tem um nome: diversidade. Que é fruto da pluralidade que todos juntos originamos, que a individualidade é única e pode apenas funcionar coletivamente em patchwork.

Nada de grave, portanto, pelo contrário. Mas, ainda assim, causa-me uma certa mossa ver o pluralismo de expressão individual  ao serviço do caos, da inflexibilidade, até do cinismo. Nunca há nada de absolutamente consensual, nada que una, nada que eleve conjuntamente, nada que liberte, que inspire totalmente. Há sempre alguém que surge com uma análise descrente, malévola, uma teoria da conspiração ou um recorte de imaginação fértil, por vezes adoentada, que desmancha todos os prazeres. Não há gestos puramente bons, não há generosidades, não há confiança em nada nem em ninguém, não se acredita, hoje e amanhã.

Há dias, uma notícia vinda da Austrália dava conta da história de uma mulher de 42 anos que acabou por casar com o dador de esperma e, desta forma, pai da sua filha. Era manifestamente uma história feliz, tanto quanto o pode ser, e até agora, para já, na verdade o que interessa o amanhã e como o conhecermos, inclusivamente em relação a nós próprios? Nas interpretações que surgiram online, havia de tudo. E aquilo que me fatigou foi a abordagem cínica, não sei se invejosa se genuinamente cética, sempre incrédula e nunca satisfeita.

Eu que adoro a liberdade, e  que gosto da mudança e da diversidade, canso-me com tanto pluralismo negativo, ainda que legítimo e fruto da singularidade de cada um. Apenas acho que há coisas que não deveriam ser tão discutíveis, talvez. Porque há que acreditar mais ou, então, questionar menos. É uma questão de ordem mental, com certeza. Da minha, admito. Com todo o respeito pelo espaço dos outros, aquilo que (me) soa a mentira ou descrença, aquilo que (me) retira a paz irrita-me solenemente. Vai-se a ver comungo de uma estranha forma de democracia, onde apenas caberia o lógico, o belo, o autêntico, numa palavra, o bem.

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A escolha de Amira

Estou um bocado farta de tanta avaliação ocidental sobre o islão, aquela que é manifestamente confusa, ignorante, preconceituosa e mesmo islamofóbica. Falo do cidadão comum, mas com vasto acesso às redes sociais e ao ciberespaço, que vomita certezas que não passam, muitas vezes, de inverdades e que mete, sem conhecimento, toda a farinha no mesmíssimo saco. O mundo muçulmano é complexo, compreende história, geografia, cultura, tradição. São demasiadas as vezes em que confundem, estes comuns cidadãos, aspetos tradicionais e culturais de várias regiões com a religião predominante nas mesmas. Na verdade, penso que até mesmo os nativos das nações árabes e/ou muçulmanas fazem frequentemente o mesmo.

Uma das coisas sobre a qual acho que se debitam opiniões não totalmente fundamentadas é a questão dos cabelos ou do rosto cobertos. A confusão instala-se logo na não diferenciação entre hijab, niqab, chador, abaya, burqa. Poderia ir por aqui, tentar destrinçar um pouco estas diferenças e o teor geográfico das mesmas, aliado ou não a mais fervor ou fundamentalismo religioso – ou, tantas e tantas vezes, a marca e identidade cultural. Mas o que mais me instiga a escrever estas linhas é a noção de que, no ocidente, se associa automaticamente e sempre os cabelos cobertos a opressão-  e repressão – feminina.

Não digo que não a há, como é por demais óbvio, há e de que maneira, infelizmente. Sobretudo se falarmos de certos países, em que o rosto coberto é lei e em que polícias de costumes – como abomino tal coisa – zelam escrupulosamente pelo cumprimento dos preceitos que dizem religiosos e intocáveis. Mas o uso do hijab, que à partida deixa ver o rosto, não é, acredito e sei, exclusivamente uma imposição ou um símbolo de rebaixamento da mulher. É opcional, sim, em alguns, vários, muitos casos. E nem sequer é fruto de uma grande religiosidade, acredite-se, mas mais de um assumir um certo orgulho étnico, profundamente cultural. Neste momento há até uma postura ideológica subjacente a este ressurgimento em várias regiões, como clara forma de contraponto ao ocidente, e simultaneamente uma tendência de moda, tudo discutível, para mim, para nós, mas real.

Conheci várias mulheres muçulmanas e em muitas o hijab não as limitou em nada, não lhes retirou qualquer espécie de liberdade.  A Amira, por exemplo. A Amira esteve na UA a fazer doutoramento, era casada, tinha uma bebé pequena, que ficou com o pai na Tunísia. A Amira foi simplesmente a mulher mais alegre que conheci até hoje. Do género fazer festa e atirar os foguetes. De hijab e roupas relativamente simples, enquanto cá esteve saiu sempre, foi ao café, jantava em restaurantes, animou as hostes com as suas gargalhadas estridentes, experimentava as sobremesas lusas todas e chorava por mais, conviveu com os rapazes e colegas todos, tirava selfies e fotos com a malta, mostrou as fotos da sua bebé de 2 anos e do marido, visitava outras cidades, aproveitou bem, à sua maneira, como todos, o tempo em que esteve em Portugal. Voltou para o seu país, é engenheira, teve mais um filho, entretanto, e continua alegre e dinâmica. A Amira é livre e feliz.

Antes do cidadão comum abrir a boca ou carregar no teclado, convém esclarecer-se um pouco mais, ousar conhecer as coisas um pouco mais, saber de geografia e história um pouco mais. Convém e, sobretudo, confundir muito menos, generalizar muito menos, deduzir muito menos. Informação e conhecimento, assim como experiências de vida pelo mundo fora e com gente diferente talvez seja o que lhes faz falta. Não falem do islão como se o conhecessem profundamente, não conhecem, não conhecemos, é mais vasto, cheio de nuances e contraditório do que parece. E depois há pessoas. Muitas sem poder escolher, é um facto, mas ainda assim muitas livres por dentro. E depois também as há com poder de escolha. Que fazem opções, diferentes das nossas, sim, mas são elas, não nós. Para o bem e para o mal, nem tudo o que parece é.

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SobreVivências

Em janeiro, vi um filme de que gostei muito: The Immigrant, do realizador James Gray. O título em Portugal ficou como “A Emigrante”, o que considero um lapso por não se ter centrado o fenómeno migratório na pessoa que acabou de entrar, vista na perspetiva norte-americana. O que só podia acontecer, a meu ver, pois a polaca Ewa passa pela mítica Ellis Island antes de mergulhar não no sonho mas no pesadelo americano.

Considerações deste tipo à parte, cheguei ao final do filme à espera de um fim que, de facto, não poderia acontecer. Por muito que goste do ator que encarna Bruno, Joaquin Phoenix, e ainda que a redenção fosse possível, algo que, de resto, ficou em aberto, o  amor não teria já margem para o ser. Não se pode amar um carrasco, não se a dignidade lá estiver, e mesmo que a dignidade seja relativa e tenha sido menos digna quando confrontada com escolhas difíceis mas, apesar de tudo, escolhas.

Quando o genérico final terminou, li tudo o que quis e pude sobre a história e os protagonistas. Inclusivamente a opinião do próprio Gray, talvez a mais realista e fiel leitura que se possa fazer sobre o filme. Pessoalmente, o que me fica desta longa-metragem é uma sensação de estranha dualidade , em que dois antagonistas e quase mas nunca amantes são coagidos pela sobrevivência e pelo amor que não aconteceu, condicionados pela proximidade física e mental mas não afetiva,  pela dependência um do outro mas sem projeto em comum.

A ambiguidade da relação de Ewa e Bruno tem o seu ponto alto na cena final. Quase que a vejo ceder, fraquejar, por um breve instante, render-se ao afeto, ao atormentado amor que ele lhe tem. Quase o espero, até. O romantismo e o classicismo, de mãos dadas, fazem as delícias da minha cinefilia. Contudo, e ainda bem, ela mostra que não foi possível, que é demasiado tarde, ou melhor, que não pode jamais apagar o antes e que o futuro dela não passará por ele. Bruno está a tempo de redimir-se, Ewa não pode esperar por nenhuma espécie de tempo. Bruno não é Joaquin e Ewa segue rumo a uma América qualquer mas certamente melhor.

A imagem final é fabulosa, “A Imigrante”, como se traduziu no Brasil, também.

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Da desproteção

Têm sido muitas, demasiadas, as notícias de crimes de família em Portugal que vêm a público nos tempos mais recentes. Miséria económica, agravada pela crise que teima em partir, miséria intelectual, miséria moral. Têm sido vítimas inocentes precisamente quem nestes casos é mais inocente. E temos ficado a saber que muitas das instituições de apoio a estas famílias de risco têm falhado redondamente na proteção que em primeira instância estão incumbidas de assegurar. No caso das meninas de Caxias e no do rapaz de Portimão, a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens falhou. Falharam, as duas, mais exatamente.

De setembro de 2013 a julho de 2015, trabalhei com várias CPCJs no âmbito do meu trabalho com duas turmas de alunos muito problemáticos, sinalizados por diferentes razões. Duas trabalharam muito bem (e trabalham, é sabido), duas trabalharam assim-assim, ficando muito do trabalho para mim própria, uma trabalhou francamente mal (e é assim, tem sido desde há bastante tempo) e as outras nem sequer trabalharam, de todo. Foi como digo e diga-se, em abono da verdade.

Esta experiência de trabalho com as CPCJs foi extraordinariamente enriquecedora, pessoal e profissionalmente. Mas foi também desgastante, por exigências burocráticas e horas e horas de reuniões, por sentimentos de frustração perante muitos dos resultados e por se conhecer um país profundo que não é bonito de se ver. Até porque a articulação foi também feita com outros agentes: assistentes sociais, tribunais e pedopsiquiatras. Um biénio brutal, portanto.

E, sim, muitas famílias são disfuncionais, muitos alunos são, justificadamente ou não, também disfuncionais, alguns profissionais destas equipas pouco funcionais, e a funcionalidade das comissões demasiado heterogénea, demasiado díspar. Falta visão, perfil,  atuação, eficácia, verdade e rigor. Sem isto tudo, e não menos, as crianças e os jovens continuarão desprotegidos. No papel tudo feito, e nem sequer sempre, nem sempre, como vi, mas na prática nada feito.

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Porque eu posso mas tu não

Porque eu posso emigrar mas tu não

Eu posso ir para o Brasil, para o Canadá, para o Dubai, para a Austrália, para Angola, para arranjar trabalho e ter uma vida melhor

Mas os brasileiros, os russos, os africanos, os ucranianos, os refugiados não têm nada que vir para cá roubar o meu emprego e usufruir das nossas regalias

Porque eu posso gozar com a religião mas tu não

Eu posso fazer cartoons e desenhos e cartazes e filmes a parodiar e brincar com a religião dos outros, é a liberdade de expressão

Mas ninguém tem o direito de mexer com a minha fé e com os meus símbolos religiosos e sagrados, isso ofende-me e não compreendo

Porque eu posso falar mal da nação mas tu não

Eu posso escrever um livro ou fazer observações sobre outras terras, outros países e outras culturas, de forma depreciativa e apontar-lhes as taras e manias

Mas não aceito que escrevam ou digam coisas más sobre a minha terra,  o meu país, a minha região, a minha cidade, onde só há gente e hábitos bons

Porque eu posso violar  mas tu não

Eu posso violar em casa, a minha filha, a minha enteada, neta, sobrinha, vizinha, crianças e rapazinhos

Já não percebo e enfurece-me que os estranhos, os estrangeiros, os migrantes venham para aqui violar as nossas mulheres

Porque eu posso fazer crimes mas tu não

Eu posso ser carteirista, assaltante, ladrão, pedófilo, assassino, que são apenas taras individuais

Pelo contrário, quem tiver outra origem no passaporte ou tiver outra crença já é tudo isso, não podendo ser, devido a atraso e esquemas culturais

Porque eu sim mas tu não

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Primeiro ponto

Depois de uma paragem necessária, volto ao mundo dos blogues. As saudades foram muitas mas, como gosto de mudanças, a casa é nova. Esta necessidade de nada ser obrigatoriamente permanente é algo meu, assim como o gosto pela opinião e pela reflexão, ao sabor do que quero e quando posso. Não faço ideia da regularidade com que os posts vão surgir, aqui, nem da sua dimensão, e quero sentir-me livre para ir indo conforme aquilo que me faz  pulsar ou serenar.
Uma coisa é certa. Considero que não devo criar expetativas em relação a um determinado número de coisas, sobretudo para não defraudar quem por aqui passar. Sou de esquerda, mas independente, gosto de pensar por cabeça própria e teria dificuldades em pertencer a um partido, o coletivismo forçado afasta-me; pouco religiosa porque não gosto de rituais, ecuménica será mais o estilo, capaz de entrar numa igreja, mesquita ou sinagoga com a mesma atitude espiritual; sou pró-refugiados, a tragédia da guerra e o drama da Siria angustiam-me; sou absolutamente contra a intolerância, a xenofobia, o racismo, a segregação; detesto machismo, daquele que confina mulheres ao fogão e ao tanque, embora ache que nós mulheres atualmente temos demasiadas frentes para combater; não suporto extremismos, fundamentalismos, terrorismos. Defendo o valor da vida humana como intocável, a dignidade do indivíduo como sagrada e as liberdades individuais, quando e se respeitando as dos outros. Sou isto e muito mais mas aqui fica a informação para que seja um teste desde já à vontade ou capacidade de se ler o que por aqui irei escrevendo.
Não sou contra o AO, embora o considere difícil, sobretudo na hifenização, que ainda não domino. Não sou perita em gramática portuguesa, gosto mais de escrever em inglês, sou distraída e o rigor sai a perder tanto com a distração como com o miúdo à minha volta, aos saltos ou a fazer perguntas em ritmo non-stop.
Posto isto, estou de volta. Em regime aberto, não muito imprevisível, espero, para exorcizar as minhas obsessões e partilhar gostos e ideias, sobre o mundo que é nosso e também sobre o meu, feminino q.b, sempre, abordando temas diversos porque não sei senão discorrer sobre a diversidade e os mundos que ela nos faz descobrir.

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