Parece mentira

No dia 1 de abril, cheguei a um ponto em que deixei de ler as notícias na internet. Uma estranha sensação de que estaria provavelmente a ler uma notícia falsa fez-me alguma confusão e não provocou em mim qualquer tipo de diversão empática. Na verdade, nunca percebi o objetivo do chamado dia das mentiras. Em inglês, o April Fools´ deixa entrever uma margem para o verbo fool, enganar, e outra, bem mais fiel ao original, para tudo o que é idiota, palerma, tonto, pateta. E é esta linha de significado que define este dia, na minha opinião. Nunca lhe vi propósito nenhum, nem utilidade nem, lá está, graça. É assim uma coisa ligeira sem verdadeiro humor, com que pretensamente nos devemos divertir à custa de meia dúzia de inverdades saídas da boca de amigos, familiares. colegas e instituições, estas com a obrigação de informar e não contribuir mais ainda para a já reinante desinformação dos nossos tempos. Na realidade, não é estranho estarmos a ler algo sem ter a certeza disso ser uma verdade? E, por vezes, brincando com coisas até sérias ou envolvendo nomes de pessoas na brincadeira, podendo sempre dar azo a rumores ou tomando-se verdades ad eternum até haver – ou conhecer-se – o desmentido? Interrogo-me se a informação televisiva, jornalística, precisa deste tipo de travessura para supostamente animar a população. Que tipo de contentamento, provisório, pode trazer algo deste tipo? Não sou, pois, fã deste dia, passo-lhe ao lado, ou passaria, não fosse a situação que comecei por descrever logo no início. À graça o que é da graça.

Nem de propósito, na segunda feira pego numa revista de jornal, no café, e encontro um artigo todo ele dedicado à mentira. Eu explico. Tratava-se de um texto com o objetivo de desdramatizar a mentira, alicerçado no facto da mesma ser necessária em variadíssimas circunstâncias. E compreensivelmente. Apesar da conotação negativa da mentira, as pequenas, as brancas, fazem parte dos nossos dias e atire a primeira pedra quem nunca disse uma. Não podemos dizer sempre a verdade, se nos reportarmos às pequenas realidades do dia a dia. Essencialmente para não ferir suscetibilidades e não magoar os outros, é verdade. Faz parte do jogo social e também da teia dos afetos, verdade verdadinha. Li ainda que um sociólogo alemão cujo nome não recordo registou em livro a sua experiência de 40 dias a dizer única e exclusivamente a verdade. A sua vida tornou-se um inferno, verdadeiramente, resultando num quase divórcio e despedimento, conflitos laborais e pessoais a fio e, desta forma, concluindo uma verdade insofismável: não se pode viver sem mentira. Incrível, não é?

Em jeito de conclusão, agora eu, também digo que vou mentindo e que me vão dizendo mentiras, nem que seja por ocultação da verdade. Só não o faço nem mo façam no dia 1 de abril, já agora. A mentira como necessidade de sobrevivência parece-me francamente simpática e amiga, já a mentira como objeto de culto e de tentativa de diversão, tenho, para dizer a verdade, as minhas dúvidas.

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