That is the question

A questão do Cartão de Cidadão segundo duas perspetivas:

1 – Há realmente coisas bem mais prementes para resolver  e assuntos que, atentando contra a dignidade quotidiana, merecem atenção e intervenção imediatas. Pessoalmente, enquanto elemento do género feminino, não me sinto minimamente discriminada ou diminuída pelo Cidadão no Cartão. Tenho, insistindo na ideia, preocupações de outra estirpe que gostaria de ver resolvidas, a maior parte para além do género, na verdade. Posto isto, a proposta do BE, não sendo descabida de todo (ver abaixo), em nada contribui para reais mudanças sociais  que importa por em marcha. Há questões laborais que importa rever, urgentemente, e áreas prioritárias que precisam de melhoramento imediato, como a educação e a saúde. O bem estar das sociedades, no  geral e em particular da nossa, é a grande prioridade, podendo e devendo passar pela efetiva igualdade de tratamento do género ou de minorias ou de outra categoria qualquer.

2 – Por outro lado, não vejo razão para tanta resistência a uma iniciativa desta natureza. Como docente de inglês, registo que nesta língua são – ou têm sido – muitas vezes acauteladas estas diferenças de sexo no tratamento linguístico. Quando eramos mais novos e aprendemos inglês nos primeiros anos, lá vinha a parte do fireman. E depois começou a dizer-se também firewoman por razões óbvias. O mesmo com policeman, acompanhado logo a seguir pelo(a!) policewoman. Pois bem, ao longo do tempo passou-se a referir a primeira profissão como firefighter e a segunda como police officer, anulando-se as marcas de género. Não recordo ter ouvido convulsões sociais por causa disso nem posições extremadas ou politizadas pró ou contra. Aliás, o mesmo com a palavra mankind. Já na uni, o meu equalitário professor neo-zealandês dizia humankind, que é a palavra que de facto se usa em termos globais e atuais. Em inglês, como se sabe, não há feminino nem masculino nos adjetivos. Nem em muitos nomes, muitos mesmo. Teacher é teacher, homem ou mulher, citizen, igual, e podíamos, com exemplos, estar aqui horas. A língua inglesa parece ser, pois, bastante mais adaptável à mudança e sem o chorrilho de protestos que podia acompanhar o processo. E há, de facto, uma consciencialização maior da igualdade, quanto mais não seja no valor simbólico das palavras.

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Da desproteção

Têm sido muitas, demasiadas, as notícias de crimes de família em Portugal que vêm a público nos tempos mais recentes. Miséria económica, agravada pela crise que teima em partir, miséria intelectual, miséria moral. Têm sido vítimas inocentes precisamente quem nestes casos é mais inocente. E temos ficado a saber que muitas das instituições de apoio a estas famílias de risco têm falhado redondamente na proteção que em primeira instância estão incumbidas de assegurar. No caso das meninas de Caxias e no do rapaz de Portimão, a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens falhou. Falharam, as duas, mais exatamente.

De setembro de 2013 a julho de 2015, trabalhei com várias CPCJs no âmbito do meu trabalho com duas turmas de alunos muito problemáticos, sinalizados por diferentes razões. Duas trabalharam muito bem (e trabalham, é sabido), duas trabalharam assim-assim, ficando muito do trabalho para mim própria, uma trabalhou francamente mal (e é assim, tem sido desde há bastante tempo) e as outras nem sequer trabalharam, de todo. Foi como digo e diga-se, em abono da verdade.

Esta experiência de trabalho com as CPCJs foi extraordinariamente enriquecedora, pessoal e profissionalmente. Mas foi também desgastante, por exigências burocráticas e horas e horas de reuniões, por sentimentos de frustração perante muitos dos resultados e por se conhecer um país profundo que não é bonito de se ver. Até porque a articulação foi também feita com outros agentes: assistentes sociais, tribunais e pedopsiquiatras. Um biénio brutal, portanto.

E, sim, muitas famílias são disfuncionais, muitos alunos são, justificadamente ou não, também disfuncionais, alguns profissionais destas equipas pouco funcionais, e a funcionalidade das comissões demasiado heterogénea, demasiado díspar. Falta visão, perfil,  atuação, eficácia, verdade e rigor. Sem isto tudo, e não menos, as crianças e os jovens continuarão desprotegidos. No papel tudo feito, e nem sequer sempre, nem sempre, como vi, mas na prática nada feito.

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