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Em janeiro, vi um filme de que gostei muito: The Immigrant, do realizador James Gray. O título em Portugal ficou como “A Emigrante”, o que considero um lapso por não se ter centrado o fenómeno migratório na pessoa que acabou de entrar, vista na perspetiva norte-americana. O que só podia acontecer, a meu ver, pois a polaca Ewa passa pela mítica Ellis Island antes de mergulhar não no sonho mas no pesadelo americano.

Considerações deste tipo à parte, cheguei ao final do filme à espera de um fim que, de facto, não poderia acontecer. Por muito que goste do ator que encarna Bruno, Joaquin Phoenix, e ainda que a redenção fosse possível, algo que, de resto, ficou em aberto, o  amor não teria já margem para o ser. Não se pode amar um carrasco, não se a dignidade lá estiver, e mesmo que a dignidade seja relativa e tenha sido menos digna quando confrontada com escolhas difíceis mas, apesar de tudo, escolhas.

Quando o genérico final terminou, li tudo o que quis e pude sobre a história e os protagonistas. Inclusivamente a opinião do próprio Gray, talvez a mais realista e fiel leitura que se possa fazer sobre o filme. Pessoalmente, o que me fica desta longa-metragem é uma sensação de estranha dualidade , em que dois antagonistas e quase mas nunca amantes são coagidos pela sobrevivência e pelo amor que não aconteceu, condicionados pela proximidade física e mental mas não afetiva,  pela dependência um do outro mas sem projeto em comum.

A ambiguidade da relação de Ewa e Bruno tem o seu ponto alto na cena final. Quase que a vejo ceder, fraquejar, por um breve instante, render-se ao afeto, ao atormentado amor que ele lhe tem. Quase o espero, até. O romantismo e o classicismo, de mãos dadas, fazem as delícias da minha cinefilia. Contudo, e ainda bem, ela mostra que não foi possível, que é demasiado tarde, ou melhor, que não pode jamais apagar o antes e que o futuro dela não passará por ele. Bruno está a tempo de redimir-se, Ewa não pode esperar por nenhuma espécie de tempo. Bruno não é Joaquin e Ewa segue rumo a uma América qualquer mas certamente melhor.

A imagem final é fabulosa, “A Imigrante”, como se traduziu no Brasil, também.

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