Cuba libre

De uma certa forma, senti contentamento com a visita de Obama a Cuba. Isso prende-se com o facto de considerar as aproximações e/ou reconciliações como do melhor que há enquanto espécie humana que somos, o mesmo se aplicando às relações entre países desavindos ou inimigos. O meu lado pacífico, universalista e idealista não podia sentir algo deste género doutra forma.

No discurso de Raul Castro frente aos jornalistas, e a propósito das perguntas de um jornalista americano filho de pai cubano que abordou a questão dos presos políticos em Cuba, houve aquele momento em que nitidamente o verniz se fez estalar. Não apreciei a reação de Castro, crispada e a tentar tapar o sol com a peneira relativamente a algo que parece ser consensual, a intolerância do regime da ilha face a dissidentes e opositores de opinião.

Contudo, e repetindo que Castro me pareceu ter estado francamente mal, ainda que perceba que não iria responder que sim, que toleram vozes da oposição, também me pareceu provocatória a atitude do jornalista americano. Não enquanto jornalista, estava a fazer o seu trabalho, mas enquanto parte da comitiva americana que em outras circunstâncias não o deixaria sequer chegar perto de perguntas do género. Refiro-me concretamente a visitas a países como a Arábia Saudita, com o seu regime anacrónico e carrasco dos direitos humanos, oprimindo os seus cidadãos de inúmeras formas.

Não há, claramente e ao contrário, uma preocupação americana com os direitos humanos neste país, ofuscados pelo valor das negociatas a vários níveis. Assim sendo não reconheço aos EUA nenhum direito de criticar ou repreender regimes ditatoriais pelo mundo fora quando um dos seus maiores aliados o é também. Não pode haver ditaduras boas e outras más, apenas porque não ostentam a nossa cor. Nesse sentido, Obama é uma desilusão, preso ao círculo americano de interesses de sempre e não um verdadeiro arauto da liberdade, como os seus primeiros discursos me fizeram pensar.

Gostava muito que as reconciliações entre nações fossem uma realidade diária e que a dignidade humana fosse, de facto, a primordial preocupação. Gostava muito que houvesse mais coerência na política internacional e que houvesse coragem por parte dos líderes para colocarem questões ideológicas de um lado e o bem estar das populações do outro. Gostava muito que Cuba fosse livre no que falta ser mas a Arábia Saudita também. Gostava muito que não visse hipocrisias deste tipo ao abrigo das transações ou dos alinhamentos. Gostava muito, estou a ver, que o mundo fosse outro.

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A escolha de Amira

Estou um bocado farta de tanta avaliação ocidental sobre o islão, aquela que é manifestamente confusa, ignorante, preconceituosa e mesmo islamofóbica. Falo do cidadão comum, mas com vasto acesso às redes sociais e ao ciberespaço, que vomita certezas que não passam, muitas vezes, de inverdades e que mete, sem conhecimento, toda a farinha no mesmíssimo saco. O mundo muçulmano é complexo, compreende história, geografia, cultura, tradição. São demasiadas as vezes em que confundem, estes comuns cidadãos, aspetos tradicionais e culturais de várias regiões com a religião predominante nas mesmas. Na verdade, penso que até mesmo os nativos das nações árabes e/ou muçulmanas fazem frequentemente o mesmo.

Uma das coisas sobre a qual acho que se debitam opiniões não totalmente fundamentadas é a questão dos cabelos ou do rosto cobertos. A confusão instala-se logo na não diferenciação entre hijab, niqab, chador, abaya, burqa. Poderia ir por aqui, tentar destrinçar um pouco estas diferenças e o teor geográfico das mesmas, aliado ou não a mais fervor ou fundamentalismo religioso – ou, tantas e tantas vezes, a marca e identidade cultural. Mas o que mais me instiga a escrever estas linhas é a noção de que, no ocidente, se associa automaticamente e sempre os cabelos cobertos a opressão-  e repressão – feminina.

Não digo que não a há, como é por demais óbvio, há e de que maneira, infelizmente. Sobretudo se falarmos de certos países, em que o rosto coberto é lei e em que polícias de costumes – como abomino tal coisa – zelam escrupulosamente pelo cumprimento dos preceitos que dizem religiosos e intocáveis. Mas o uso do hijab, que à partida deixa ver o rosto, não é, acredito e sei, exclusivamente uma imposição ou um símbolo de rebaixamento da mulher. É opcional, sim, em alguns, vários, muitos casos. E nem sequer é fruto de uma grande religiosidade, acredite-se, mas mais de um assumir um certo orgulho étnico, profundamente cultural. Neste momento há até uma postura ideológica subjacente a este ressurgimento em várias regiões, como clara forma de contraponto ao ocidente, e simultaneamente uma tendência de moda, tudo discutível, para mim, para nós, mas real.

Conheci várias mulheres muçulmanas e em muitas o hijab não as limitou em nada, não lhes retirou qualquer espécie de liberdade.  A Amira, por exemplo. A Amira esteve na UA a fazer doutoramento, era casada, tinha uma bebé pequena, que ficou com o pai na Tunísia. A Amira foi simplesmente a mulher mais alegre que conheci até hoje. Do género fazer festa e atirar os foguetes. De hijab e roupas relativamente simples, enquanto cá esteve saiu sempre, foi ao café, jantava em restaurantes, animou as hostes com as suas gargalhadas estridentes, experimentava as sobremesas lusas todas e chorava por mais, conviveu com os rapazes e colegas todos, tirava selfies e fotos com a malta, mostrou as fotos da sua bebé de 2 anos e do marido, visitava outras cidades, aproveitou bem, à sua maneira, como todos, o tempo em que esteve em Portugal. Voltou para o seu país, é engenheira, teve mais um filho, entretanto, e continua alegre e dinâmica. A Amira é livre e feliz.

Antes do cidadão comum abrir a boca ou carregar no teclado, convém esclarecer-se um pouco mais, ousar conhecer as coisas um pouco mais, saber de geografia e história um pouco mais. Convém e, sobretudo, confundir muito menos, generalizar muito menos, deduzir muito menos. Informação e conhecimento, assim como experiências de vida pelo mundo fora e com gente diferente talvez seja o que lhes faz falta. Não falem do islão como se o conhecessem profundamente, não conhecem, não conhecemos, é mais vasto, cheio de nuances e contraditório do que parece. E depois há pessoas. Muitas sem poder escolher, é um facto, mas ainda assim muitas livres por dentro. E depois também as há com poder de escolha. Que fazem opções, diferentes das nossas, sim, mas são elas, não nós. Para o bem e para o mal, nem tudo o que parece é.

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Porque eu posso mas tu não

Porque eu posso emigrar mas tu não

Eu posso ir para o Brasil, para o Canadá, para o Dubai, para a Austrália, para Angola, para arranjar trabalho e ter uma vida melhor

Mas os brasileiros, os russos, os africanos, os ucranianos, os refugiados não têm nada que vir para cá roubar o meu emprego e usufruir das nossas regalias

Porque eu posso gozar com a religião mas tu não

Eu posso fazer cartoons e desenhos e cartazes e filmes a parodiar e brincar com a religião dos outros, é a liberdade de expressão

Mas ninguém tem o direito de mexer com a minha fé e com os meus símbolos religiosos e sagrados, isso ofende-me e não compreendo

Porque eu posso falar mal da nação mas tu não

Eu posso escrever um livro ou fazer observações sobre outras terras, outros países e outras culturas, de forma depreciativa e apontar-lhes as taras e manias

Mas não aceito que escrevam ou digam coisas más sobre a minha terra,  o meu país, a minha região, a minha cidade, onde só há gente e hábitos bons

Porque eu posso violar  mas tu não

Eu posso violar em casa, a minha filha, a minha enteada, neta, sobrinha, vizinha, crianças e rapazinhos

Já não percebo e enfurece-me que os estranhos, os estrangeiros, os migrantes venham para aqui violar as nossas mulheres

Porque eu posso fazer crimes mas tu não

Eu posso ser carteirista, assaltante, ladrão, pedófilo, assassino, que são apenas taras individuais

Pelo contrário, quem tiver outra origem no passaporte ou tiver outra crença já é tudo isso, não podendo ser, devido a atraso e esquemas culturais

Porque eu sim mas tu não

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